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Crônicas de Sarcasmo

A coluna onde o sarcasmo encontra o jornalismo e a ironia vira análise.

Esta é uma crônica de opinião e sátira. As citações reproduzidas são públicas e têm fonte documentada.

O espaço está aberto para esclarecimentos ou direito de resposta.

Assinada por: Ronaldo N.

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A culpa que sempre boia

Há uma nova política pública em Guarulhos: a Teoria do Colchão Culpado.

06.fev.2026 às 18h52

Segundo os vídeos recentes do prefeito Lucas Sanches e do secretário Giovani, o problema dos córregos que transbordam, das ruas que viram rios e das casas invadidas pela água não é estrutural, não é histórico, não é técnico — é moral.

Prefeito lucas sanches e secretário Giovanni Calderon

Prefeito lucas sanches e secretário Giovanni Calderon — Foto: Reprodução

A culpa é do cidadão.

Do sofá abandonado.

Do saco de lixo mal-amarrado.

E, principalmente, do colchão.

O vídeo é didático: autoridades dentro do córrego, dedo em riste, câmera ligada, indignação calibrada. Lá está ele, o vilão da cidade: um colchão velho, encharcado, jogado no leito do Córrego do Japonês. Caso encerrado. Alagamento explicado. Planejamento urbano dispensado.

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Sim, é verdade — tem lixo.

Sim, é verdade — tem irresponsabilidade.

Mas também é verdade que córrego que vive no limite estrutural vai transbordar com ou sem colchão. Basta chover um pouco mais forte. Basta o volume normal de uma cidade que cresceu sem a infraestrutura acompanhar.

Limpar é necessário.

Mas limpar não é política pública. É manutenção básica.

O problema é que Guarulhos alaga todo ano, nos mesmos pontos, com a mesma chuva e o mesmo discurso. E curiosamente, o colchão aparece sempre como novidade, como se tivesse acabado de se mudar para o córrego ontem à noite, em um complô silencioso contra a gestão municipal.

Se o córrego não comporta a água, não é o lixo que manda — é a engenharia.

Se a galeria é antiga, subdimensionada e ignorada há décadas, não é o cidadão que resolveu isso jogando um sofá fora.

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Mas o discurso é conveniente.

É mais fácil apontar para o colchão do que para o orçamento.

Mais simples filmar o lixo do que explicar por que obras estruturais nunca saem do papel.

Mais confortável culpar quem mora na ponta do problema do que admitir que a cidade cresceu e o poder público não acompanhou.

No fim, fica a pergunta que o vídeo não responde:

Se amanhã todo mundo virar exemplo de cidadania, reciclar direitinho e nunca mais jogar lixo em lugar nenhum…

Guarulhos para de alagar?

Ou o próximo vídeo vai precisar de outro vilão — talvez uma geladeira.

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