Crônicas de Sarcasmo
A coluna onde o sarcasmo encontra o jornalismo e a ironia vira análise.
Esta é uma crônica de opinião e sátira. As citações reproduzidas são públicas e têm fonte documentada.
O espaço está aberto para esclarecimentos ou direito de resposta.
Assinada por: Ronaldo N.
A culpa que sempre boia
Há uma nova política pública em Guarulhos: a Teoria do Colchão Culpado.
Segundo os vídeos recentes do prefeito Lucas Sanches e do secretário Giovani, o problema dos córregos que transbordam, das ruas que viram rios e das casas invadidas pela água não é estrutural, não é histórico, não é técnico — é moral.

Prefeito lucas sanches e secretário Giovanni Calderon — Foto: Reprodução
A culpa é do cidadão.
Do sofá abandonado.
Do saco de lixo mal-amarrado.
E, principalmente, do colchão.
O vídeo é didático: autoridades dentro do córrego, dedo em riste, câmera ligada, indignação calibrada. Lá está ele, o vilão da cidade: um colchão velho, encharcado, jogado no leito do Córrego do Japonês. Caso encerrado. Alagamento explicado. Planejamento urbano dispensado.
Sim, é verdade — tem lixo.
Sim, é verdade — tem irresponsabilidade.
Mas também é verdade que córrego que vive no limite estrutural vai transbordar com ou sem colchão. Basta chover um pouco mais forte. Basta o volume normal de uma cidade que cresceu sem a infraestrutura acompanhar.
Limpar é necessário.
Mas limpar não é política pública. É manutenção básica.
O problema é que Guarulhos alaga todo ano, nos mesmos pontos, com a mesma chuva e o mesmo discurso. E curiosamente, o colchão aparece sempre como novidade, como se tivesse acabado de se mudar para o córrego ontem à noite, em um complô silencioso contra a gestão municipal.
Se o córrego não comporta a água, não é o lixo que manda — é a engenharia.
Se a galeria é antiga, subdimensionada e ignorada há décadas, não é o cidadão que resolveu isso jogando um sofá fora.
Mas o discurso é conveniente.
É mais fácil apontar para o colchão do que para o orçamento.
Mais simples filmar o lixo do que explicar por que obras estruturais nunca saem do papel.
Mais confortável culpar quem mora na ponta do problema do que admitir que a cidade cresceu e o poder público não acompanhou.
No fim, fica a pergunta que o vídeo não responde:
Se amanhã todo mundo virar exemplo de cidadania, reciclar direitinho e nunca mais jogar lixo em lugar nenhum…
Guarulhos para de alagar?
Ou o próximo vídeo vai precisar de outro vilão — talvez uma geladeira.