Do Erudito ao Popular — Conheça Marcelo Ermida
O Conexão Guarulhos conversou com Marcelo Ermida e conheceu mais a fundo sua história e sua relação com a arte.
C.G: Como iniciou sua carreira?
M.E: Considero que minha carreira artística teve vários “pontos de partida” ao longo da trajetória. A música surgiu quase como uma consequência natural da influência do rock na minha adolescência.

— Foto: Arquivo pessoal
Aos 14 anos, tive meu primeiro contato com o palco, em um evento idealizado por um grupo de jovens que mal sabia tocar uma nota. A ideia era nos apresentarmos com playback, mas o tape deck não funcionou. Acabamos pegando emprestados os instrumentos da banda de abertura e fizemos uma barulheira memorável — tão memorável que fomos praticamente expulsos do palco naquele dia.
O que poderia ter sido um grande desestímulo acabou se transformando em um ponto de virada. Foi quando percebi que, para seguir na música, eu precisava de direção e formação. Procurei meus primeiros professores de contrabaixo e comecei a tocar com músicos na mesma sintonia, especialmente no efervescente cenário dos anos 80.
Paralelamente, minha trajetória como professor também começou nesse período. Lecionei judô em escolas e projetos, como o Clube de Mães do Parque CECAP. Essa experiência contribuiu muito para minha visão sobre disciplina, responsabilidade e formação humana — valores que mais tarde levei para a música e para a sala de aula.
Buscando uma formação artística mais ampla, estudei teatro no Curso Emílio Fontana (1986–1987), participei do seminário “Introdução à História do Cinema” (1986) e, anos depois, fiz o curso de Produção de Videoclipe pela Prefeitura de Guarulhos (2010). Em 2008, obtive o DRT de Radialista – Programador Musical pelo Senac Lapa Scipião. Posteriormente, concluí minha Licenciatura em Música, consolidando minha formação acadêmica e ampliando minha atuação como educador.
Nos anos 90, o trabalho com música autoral no power trio Spiritus marcou meus primeiros passos rumo à profissionalização. A demo Opus I despertou o interesse do produtor Carlos Eduardo Miranda, pelo selo Excelente Discos — um reconhecimento importante naquele momento.
No fim dos anos 90 e início dos anos 2000, viver de música se tornou realidade com a banda Véio Brônso, levando a estrada e consolidando presença nas principais casas noturnas de São Paulo.
C.G: Você sempre viu a música como uma possibilidade de carreira?
M.E: Até o final dos anos 80, eu não via a música como minha principal carreira. Ao ingressar na Faculdade de Educação Física, acreditava que seguiria como professor e atleta de judô.
Mas foi justamente na faculdade que tudo começou a mudar. Em um trabalho de Ginástica Aeróbica, eu e um colega — também contrabaixista em uma banda cover do Pink Floyd — tivemos a ideia de acompanhar ao vivo a coreografia do grupo. O que era apenas um experimento acadêmico virou uma verdadeira festa no ginásio. A energia daquele momento foi decisiva.
A partir daí, passei a integrar o Spiritus e a ideia de viver de música deixou de ser distante para se tornar uma obsessão.
Entre 1995 e 1998, tive uma formação mais estruturada na ULM (Universidade Livre de Música). Quando os convites para tocar se intensificaram e os cachês se tornaram constantes com a banda Véio Brônso, tomei uma decisão ousada: me dedicar integralmente à música.
Foi um período de escolhas importantes — e definitivas — na construção da minha trajetória.
C.G: Qual dos seus trabalhos você mais gosta e por quê?
M.E: Gosto de atuar em diferentes vertentes artísticas, cada uma com seus desafios e particularidades.
Na música ao vivo, o contato direto com o público e a troca de energia são revigorantes. Estar no palco, tocando com amigos e compartilhando esse momento com a galera é algo único.
A produção musical amplia esse universo, trazendo o processo de criação e o registro da obra. Acompanhar o caminho da inspiração até a música finalizada é algo verdadeiramente mágico — o mesmo vale para o audiovisual e para a sonoplastia, como no espetáculo Me Ame Como Uma Sexta-Feira no Centro, dirigido por Hélio Lima e Pretah Thaís, com trilha de Liniker, em que atuei no tratamento e na finalização do som, contribuindo para que a experiência sonora dialogasse com a cena e potencializasse os afetos propostos pela obra.
Já como produtor e técnico, a satisfação está em realizar um evento bem-sucedido, proporcionando experiências marcantes para artistas, público e equipe.
Em 2025, também coloquei em prática minha formação como radialista com o Baú do Emici, no programa Conexão Gru, da Rádio Black Sampa. Foi uma experiência incrível resgatar gravações raras da cena musical de Guarulhos e construir cada episódio. Ao todo, foram 11 histórias registradas — e um 12º episódio inédito ainda guardado.
Todas essas frentes se conectam pelo mesmo propósito: valorizar a produção artística da cidade, preservar sua memória cultural e seguir criando novas possibilidades por meio da música e da comunicação.

— Foto: Arquivo pessoal
C.G: Quais são suas inspirações brasileiras?
M.E: Minha inspiração é bastante cosmopolita. A música brasileira me encanta especialmente quando dialoga com o mundo, encontrando o rock, o jazz e outras linguagens universais.
O álbum Clube da Esquina é um exemplo marcante desse encontro, reunindo artistas que deixaram obras essenciais.
Os primeiros discos dos Secos & Molhados também são fundamentais, pela força poética, musical e performática que atravessa gerações.
Na música instrumental, destaco nomes como Egberto Gismonti, o Grupo Medusa e Nico Assumpção, que deixou um legado importante para o baixo elétrico.
O rock, o heavy metal, o punk e o cenário underground dos anos 80 também foram determinantes. Guardo momentos marcantes, como um show do Violeta de Outono, em 1988, e a apresentação da banda Metal Mania, de Robertinho do Recife, na abertura do show do Quiet Riot — que, para mim, chegou a superar a atração principal.
No estudo, tudo inspira: bossa nova, baião, música de raiz — toda a riqueza sonora brasileira.
Mas minha maior inspiração vem das pessoas: músicos, professores, parceiros de estrada e vivências em família. É na convivência que a música realmente acontece.

— Foto: Arquivo pessoal
C.G: Para você, existe diferença entre música popular e erudita?
M.E: Existem diferenças importantes, mas também muitos pontos em comum.
A música popular é extremamente diversa, com múltiplos estilos, formações e linguagens. Já a música de concerto também apresenta variações entre épocas, estilos e formações, cada uma com suas características próprias.
Há ainda uma forte influência mútua entre esses universos, gerando fusões riquíssimas ao longo da história.
No fim, o ponto em comum mais essencial é que ambas existem para serem sentidas. A música só se completa quando chega às pessoas.
C.G: Atualmente você trabalha no Conservatório Municipal de Guarulhos. Como isso impactou sua vida?
M.E: O Conservatório representou, para mim, o encontro com a excelência no ensino de música — e também uma grande responsabilidade, como aluno e profissional.
As amizades e a troca constante de conhecimentos tornam essa vivência ainda mais especial.
No trabalho, busco contribuir com dedicação para que cada projeto seja bem-sucedido, especialmente os eventos pedagógicos, nos quais os alunos levam seu talento ao público. São momentos que exigem cuidado e atenção aos detalhes para se tornarem experiências marcantes.
Como aluno, ampliei horizontes, explorei instrumentos, desenvolvi o uso artístico da voz e fortalecei minha expressão musical. Além disso, tive acesso a uma formação contínua essencial.
Participar de apresentações ao lado de grandes talentos — como tocar com orquestras — são experiências intensas, difíceis até de traduzir em palavras.
C.G: Você produziu o filme “Notas do Tempo”. Como foi esse processo?
M.E: O documentário Notas do Tempo – Seis décadas do Conservatório Municipal de Guarulhos nasceu como um presente pelos 60 anos da instituição.
Foi um processo desafiador, marcado pelo contexto da pandemia. As gravações aconteceram em um período sensível, também atravessado por perdas importantes de pessoas ligadas ao Conservatório, que deixaram um legado significativo.
Produzir sem recursos foi outro grande desafio. Ainda assim, todos os envolvidos abraçaram o projeto com entrega genuína — o que tornou o filme ainda mais especial.
Montar a equipe e dar forma ao projeto exigiu dedicação e persistência.
O filme já foi exibido em eventos importantes, como a abertura da Temporada das Orquestras de Guarulhos, no Cine Bento, e em uma roda de conversa na Bienal do Livro de Guarulhos. Agora, segue inscrito em festivais, na expectativa de novos caminhos em 2026.
C.G: O que podemos esperar do Marcelo MC em 2026?
M.E: Em 2026, Marcelo Ermida segue com seus projetos em andamento: shows com a Banda Coletivo Pop, atuação nos eventos do Conservatório e trabalhos em produção musical e audiovisual.
Mas, acima de tudo, segue aberto a novas experiências e possibilidades artísticas. A busca por novas formas de expressão continua sendo o grande motor dessa trajetória.
Que venham novos desafios, encontros e criações.
Bora, 2026.
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